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Application Identifiers da GS1 no UDI: guia dos AIs (01), (10), (11), (17), (21) e (8014)

 ·  BHP Consulting

Quem olha um rótulo UDI pela primeira vez vê uma sequência aparentemente aleatória: (01)07891234567895(17)280831(10)L2608A. Mas essa sequência tem uma gramática rigorosa — e ela se chama Application Identifiers (AIs). São os AIs que dizem ao leitor de código de barras, ao ERP do hospital e às bases regulatórias o que significa cada pedaço do dado. Neste guia, explicamos como os AIs funcionam e detalhamos os seis mais importantes para o UDI de dispositivos médicos.

O que são os Application Identifiers

Os AIs são prefixos numéricos de 2 a 4 dígitos, padronizados no GS1 General Specifications — o documento normativo do sistema GS1, cuja seção 3 define cada AI, seu significado e seu formato de dados. Na prática, cada AI anuncia o campo que vem em seguida: o AI 01 avisa que os próximos 14 dígitos são o GTIN; o AI 10 avisa que os caracteres seguintes são o número de lote; e assim por diante.

Três regras básicas evitam a maioria dos erros:

  • Os parênteses não são codificados. Eles existem apenas na versão legível por humanos (HRI), para facilitar a leitura. Dentro do DataMatrix, transmite-se somente 01078912345678951728... — quem “escreve” os parênteses no dado codificado quebra a leitura automática.
  • Há AIs de comprimento fixo e de comprimento variável. O GTIN do AI (01) tem sempre 14 dígitos; já o lote do AI (10) pode ter de 1 a 20 caracteres. Campos variáveis, quando não são o último da sequência, precisam ser encerrados com um separador FNC1 (transmitido como o caractere <GS>), para que o leitor saiba onde um campo termina e o próximo começa.
  • A ordem importa para a eficiência. O GS1 General Specifications recomenda posicionar primeiro os AIs de comprimento predefinido e deixar os variáveis para o fim — assim minimiza-se o uso de separadores e o código fica menor.
Sequência UDI concatenada com os AIs (01), (11), (17), (10) e (21) destacados por cores, mostrando campos fixos, variáveis e o separador FNC1
Figura 1 — Lendo um UDI concatenado: o AI (01) carrega o UDI-DI e os demais AIs compõem o UDI-PI.

Os seis AIs essenciais do UDI

A tabela abaixo resume os Application Identifiers mais usados na identificação única de dispositivos médicos, com o formato definido pelo GS1 General Specifications (a notação N indica dígito numérico, X indica caractere alfanumérico do conjunto CSET 82, e .. indica comprimento variável até o limite):

AINomePapel no UDIFormato (dados)
(01)GTIN — Global Trade Item NumberUDI-DI — identifica o modelo do produtoN14 — fixo, 14 dígitos
(10)Número de loteUDI-PIX..20 — variável, até 20 caracteres
(11)Data de fabricaçãoUDI-PIN6 — fixo, AAMMDD
(17)Data de validadeUDI-PIN6 — fixo, AAMMDD
(21)Número de sérieUDI-PIX..20 — variável, até 20 caracteres
(8014)HIDRI — Master UDI-DIRegistro de famílias de dispositivos altamente individualizados (EUDAMED)X..25 — variável, com par de caracteres verificadores

(01) — GTIN: o coração do UDI-DI

O AI (01) carrega o GTIN-14, o identificador do modelo do dispositivo — que, no sistema GS1, cumpre o papel de UDI-DI. O campo tem sempre 14 dígitos: GTINs de 13 posições recebem um zero à esquerda. A estrutura interna é composta pelo dígito indicador (que diferencia os níveis de embalagem: 0 para a unidade, 1 a 8 para embalagens superiores), pelo prefixo GS1 da empresa somado à referência do item, e pelo dígito verificador final, calculado por algoritmo. É o valor do AI (01) que se cadastra como UDI-DI no GUDID, na EUDAMED e no SIUD da ANVISA.

Estrutura do GTIN-14: dígito indicador, prefixo GS1 da empresa com referência do item e dígito verificador
Figura 2 — A estrutura do GTIN-14 transmitido no AI (01): indicador de nível de embalagem, prefixo + referência e dígito verificador.

(10) — Número de lote

O AI (10) transporta o lote de produção: até 20 caracteres alfanuméricos (letras, números e alguns símbolos do conjunto CSET 82). É um campo de comprimento variável — se não for o último elemento da sequência, exige o separador FNC1 após o valor. O conteúdo deve reproduzir exatamente o lote registrado no sistema da qualidade e impresso no restante da rotulagem.

(11) — Data de fabricação

Formato fixo de 6 dígitos no padrão AAMMDD (ano-mês-dia): 15 de agosto de 2026 vira 260815. É usado quando a data de fabricação consta do rótulo do dispositivo — regra comum em produtos sem prazo de validade, nos quais a data de fabricação passa a ser o dado de produção relevante.

(17) — Data de validade

Mesmo formato AAMMDD do AI (11), com uma particularidade prevista no GS1 General Specifications: quando o dia não é especificado, usa-se 00 — e o sistema deve interpretar como o último dia do mês indicado. Assim, 280800 significa “válido até 31 de agosto de 2028”. A validade do AI (17) é um dos campos mais críticos para hospitais e distribuidores, pois alimenta o controle de vencimento automatizado.

(21) — Número de série

O AI (21) individualiza cada unidade produzida: até 20 caracteres alfanuméricos, comprimento variável. É obrigatório quando a regulamentação exige serialização — caso típico de implantes e dispositivos de maior risco — e é o que permite rastrear um dispositivo específico até o paciente, e não apenas o lote.

(8014) — HIDRI, o “Master UDI-DI”

O mais recente da lista. O AI (8014) carrega o Highly Individualised Device Registration Identifier (HIDRI) — conhecido no contexto do MDR europeu como Master UDI-DI —, criado pela GS1 por meio da change notification GSCN 21-283 e incorporado às edições atuais do General Specifications. Ele atende à exigência da Comissão Europeia para dispositivos altamente individualizados, começando pelas famílias de lentes de contato padronizadas: em vez de registrar na EUDAMED um GTIN para cada combinação de grau, raio e diâmetro, registra-se a família do produto sob um único identificador.

Tecnicamente, o HIDRI é uma aplicação restrita do Global Model Number (GMN): até 25 caracteres, terminando com um par de caracteres verificadores calculado conforme a seção 7.9.5 do General Specifications, e com a obrigação de conter ao menos um caractere não numérico — justamente para que nenhum sistema o confunda com um GTIN. Fabricantes de lentes de contato já podem obter seus Master UDI-DIs junto à GS1; o padrão equivalente para óculos está em fase final de definição.

Montando a sequência completa

Juntando tudo, um rótulo UDI típico de um dispositivo serializado ficaria assim na versão legível:

(01) 07891234567895 (11) 260815 (17) 280831 (10) L2608A (21) 000123

Na codificação do DataMatrix, a mesma informação segue as regras da seção de sintaxe do General Specifications: caractere FNC1 inicial (que identifica o padrão GS1), AIs de comprimento fixo primeiro — (01), (11), (17) —, e os variáveis por último, com o FNC1 separando o lote do serial. O resultado é um código compacto que qualquer leitor compatível com GS1 interpreta campo a campo, sem ambiguidade.

Erros que reprovam etiquetas em auditoria

  1. Codificar os parênteses dentro do DataMatrix — eles pertencem só ao HRI.
  2. Data em formato brasileiro15/08/26 ou 150826 (DDMMAA) no lugar do AAMMDD exigido.
  3. Esquecer o FNC1 após um campo variável que não é o último — o leitor “emenda” lote e serial num campo só.
  4. Divergência entre o codificado e o impresso — o HRI mostra um lote e o DataMatrix carrega outro.
  5. GTIN com dígito verificador errado ou transmitido com menos de 14 posições no AI (01).
  6. Reaproveitar a mesma sequência em níveis de embalagem diferentes — cada nível tem seu próprio GTIN, com dígito indicador distinto.

Vale lembrar: além do conteúdo correto, o código precisa ser legível — e isso é objeto da verificação de qualidade de impressão conforme a ISO 15415, tema que merece (e terá) um artigo próprio.

Onde consultar a fonte oficial

A referência definitiva é o GS1 General Specifications, mantido pela GS1 — a página oficial do padrão dá acesso à edição vigente e ao portal de normas (ref.gs1.org): a seção 3 traz a definição e o formato de cada Application Identifier, e as seções de sintaxe e regras de processamento detalham FNC1, ordem de concatenação e caracteres permitidos. Para dispositivos médicos, os guias de implementação da GS1 Healthcare traduzem essas regras para os requisitos de UDI do FDA, do MDR europeu e — via GS1 Brasil — da ANVISA.

As informações deste artigo refletem o GS1 General Specifications e os padrões GS1 vigentes em setembro de 2026. Consulte sempre a edição atual das especificações.

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